As novas diretrizes aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) para o uso da inteligência artificial nas escolas colocam em evidência um desafio cada vez mais urgente: como formar crianças e adolescentes que já nasceram em um mundo digital e convivem diariamente com ferramentas de IA.
Conhecida como Geração Alfa, a parcela da população nascida a partir de 2010 é a primeira a crescer cercada por algoritmos, plataformas inteligentes e inteligência artificial generativa. Para o educador Tiago Belotte, diretor educacional do Dia Lab, do Grupo Salta Educação, o desafio não é impedir o uso dessas tecnologias, mas desenvolver um letramento crítico capaz de transformar jovens em usuários conscientes e protagonistas do próprio aprendizado.
Confira sete caminhos apontados pelo especialista:
Ensinar os jovens a questionar as respostas da IA
A facilidade de obter respostas prontas pode criar uma falsa sensação de aprendizado. Segundo Belotte, um dos maiores riscos é que os estudantes passem a confiar cegamente nas respostas produzidas pela tecnologia. "Um aluno pode usar a IA todos os dias para entregar tarefas e ainda assim não fazer a menor ideia de como ela funciona, onde ela erra ou o que está entregando dos próprios dados ao usá-la."
Para o especialista, mais importante do que saber utilizar uma ferramenta é desenvolver a capacidade de analisar, verificar e questionar o que ela produz.
Mostrar que a IA deve ampliar o pensamento, não substituí-lo
O uso excessivamente passivo da tecnologia pode levar ao fenômeno conhecido como "delegação cognitiva", quando o estudante transfere para a máquina tarefas que deveriam estimular seu próprio raciocínio.
Segundo Belotte, a IA pode ser tanto um problema quanto uma solução. "Usada como atalho passivo, ela atrofia atenção, autonomia e pensamento crítico. Usada de forma reflexiva, mediada e consciente, ela vira uma parceira de raciocínio que provoca, contrasta pontos de vista e amplia a capacidade de análise", afirma.
Desenvolver o letramento crítico em IA
Na avaliação do especialista, a principal desigualdade que surge na era da inteligência artificial não está no acesso à tecnologia, mas na capacidade de compreendê-la. "O risco mais perigoso de desigualdade hoje não está só no acesso às ferramentas. A desigualdade mais silenciosa é a distância entre quem usa a IA como autor crítico e quem usa como consumidor passivo", explica.
Por isso, o letramento em IA deve ir além da operação de ferramentas e incluir conhecimentos sobre funcionamento, limites, vieses e impactos dessas tecnologias.
Fortalecer competências que continuam sendo humanas
Com sistemas capazes de executar tarefas técnicas em segundos, habilidades humanas passam a ser ainda mais valorizadas. Belotte destaca competências como pensamento crítico, criatividade, colaboração, empatia e visão sistêmica como diferenciais para o futuro. Segundo ele, o papel da escola é justamente ajudar os estudantes a desenvolver essas capacidades.
Ensinar os jovens a reconhecer bolhas algorítmicas
A Geração Alfa cresceu em ambientes digitais altamente personalizados por algoritmos que selecionam conteúdos, moldam interesses e influenciam comportamentos. Para o especialista, compreender essa dinâmica é uma habilidade essencial para a cidadania digital.
Valorizar o processo de aprendizagem, não apenas a resposta final
Com a IA generativa produzindo textos, resumos e respostas em poucos segundos, educadores defendem uma mudança na forma de avaliar os estudantes.
Para Belotte, o foco precisa sair do produto final e se concentrar no percurso realizado pelo aluno. "Quando a resposta pronta está a um clique, avaliar o produto final perde sentido. O que importa avaliar é o processo: como o aluno pensou, decidiu, criou e chegou lá", afirma.
Não ignorar a existência da inteligência artificial
Embora muitas escolas ainda discutam como lidar com a tecnologia, o especialista acredita que a omissão representa o maior risco, uma vez que os estudantes já utilizam IA dentro e fora da sala de aula, independentemente das decisões institucionais. "O maior erro é não decidir nada, sem perceber que isso também é uma decisão", afirma Belotte.
A escola não deve escolher entre proibir ou liberar a tecnologia indiscriminadamente, mas assumir seu papel na formação de cidadãos preparados para utilizá-la com responsabilidade.
Na avaliação do especialista, preparar a Geração Alfa para o futuro exige uma mudança de perspectiva sobre o próprio papel da educação. "Não formamos uma geração que apenas consome IA, mas uma geração capaz de entendê-la, questioná-la e usá-la para construir o futuro que deseja", conclui.
Em um mundo no qual as respostas estão cada vez mais acessíveis, a capacidade de fazer perguntas, pensar criticamente e tomar decisões conscientes pode se tornar a habilidade mais valiosa de todas.
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