Empresas de tecnologia se consolidaram como referências em dados e experiência digital. Ainda assim, muitas seguem tratando a logística como um custo operacional, e não como parte central da estratégia de negócios. Para Vinicius Pessin, CEO e cofundador da Eu Entrego, essa visão pode comprometer diretamente a experiência do cliente e os resultados das companhias.
"É curioso observar como negócios que dominam inteligência artificial, automação e personalização ainda encaram a entrega como um mal necessário, algo a ser barateado e resolvido no fim da cadeia. Na prática, ela é o ponto de contato mais decisivo com o cliente", afirma.
Estudos setoriais indicam que os custos logísticos no Brasil nos últimos anos se situam entre 15% e 18% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, cerca de R$ 1,83 trilhão em 2024, de acordo com o Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS).
Segundo Pessin, a logística, muitas vezes, está associada a uma lógica de decisão baseada apenas em preço. "Em vez de pensar logística como promessa cumprida, muitas empresas continuam optando pelo frete mais barato ou pelo contrato mais enxuto. O cliente não separa produto de entrega. Quando o prazo falha, a experiência inteira é comprometida", explica.
Outro ponto destacado por Pessin é o uso excessivo de indicadores que não necessariamente orientam decisões estratégicas. "Há dashboards sofisticados e métricas em abundância, mas pouco foco no essencial. No fim, tudo se resume a duas perguntas: a empresa está cumprindo o prazo prometido e a operação é sustentável no longo prazo?", questiona.
De acordo com ele, organizações mais maduras já começam a adotar uma abordagem mais estruturada, tratando a logística de forma preditiva. "Chuva, sazonalidade e picos de demanda não são exceções, são variáveis do negócio. Antecipar cenários deixou de ser diferencial e passou a ser condição mínima para competir", ressalta.
O executivo também chama atenção para a necessidade de integração entre estratégia e execução. "Muitos planos nascem ambiciosos, mas se desconectam rapidamente da operação. Estratégia sem responsável definido vira apenas apresentação. Quando há revisão contínua e conexão com orçamento, ela se torna uma ferramenta real de gestão", avalia.
A discussão sobre inteligência artificial reforça essa mudança de mentalidade. "Há empresas que tratam IA como um projeto técnico. Outras entendem que ela deve apoiar decisões estratégicas e integrar diferentes áreas. Nesse caso, a IA deixa de ser ferramenta e passa a fazer parte do processo decisório", pontua.
Para Pessin, não é por acaso que grandes plataformas digitais transformaram a logística em diferencial competitivo. "O cliente não compra apenas um produto, mas a confiança de que ele será entregue como prometido. Quando a entrega falha, todo o valor construído anteriormente pode se perder rapidamente", afirma.
Para o especialista, tratar a logística como custo é uma abordagem limitante. "Enxergá-la como estratégia exige disciplina, método e mudança cultural. A experiência do cliente não termina no clique — o último quilômetro costuma ser o momento mais sensível dessa relação", conclui.
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