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O perigo invisível do inverno está dentro de casa
Com a umidade elevada e o El Niño, o inverno no Sul favorece a formação de mofo e agrava doenças respiratórias. Especialistas alertam que a condens...
30/07/2026 14h08
Por: Redação Fonte: Agência Dino

O inverno no Sul do Brasil é marcado por uma combinação conhecida dos gaúchos: temperaturas baixas, dias chuvosos e altos índices de umidade. Em 2026, esse cenário ganhou ainda mais atenção devido à chegada do fenômeno El Niño. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o fenômeno aumenta a probabilidade de chuvas acima da média e períodos prolongados de umidade.

Os problemas vão muito além dos transtornos urbanos provocados pela chuva. Em ambientes fechados, o excesso de umidade cria condições ideais para o surgimento de mofo, bolor e fungos, fatores associados ao agravamento de doenças respiratórias. As consequências estão na rede de saúde.

O Rio Grande do Sul decretou situação de emergência em saúde pública diante do aumento das internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e ampliou sua estrutura hospitalar para enfrentar o período crítico do outono e inverno. Somente neste ano, o Estado anunciou a abertura de mais de 1,4 mil leitos destinados ao atendimento de pacientes com doenças respiratórias.

Embora a relação entre frio e doenças respiratórias seja amplamente conhecida, especialistas alertam que há um fator que muitas vezes é ignorado e está dentro das nossas casas. Paredes frias, pontes térmicas e ambientes com pouca ventilação favorecem a chamada condensação superficial, fenômeno responsável pelo aparecimento de manchas de umidade e mofo em milhares de residências. Estima-se que 80% das construções apresentam algum tipo de patologia relacionada à infiltração ou condensação, o que compromete a capacidade de secagem das paredes.

"A condensação ocorre quando o vapor de água presente no ar encontra superfícies mais frias, transformando-se em gotículas. É o mesmo processo observado em um copo gelado em um dia quente. Dentro das edificações, porém, esse fenômeno pode permanecer invisível por anos, favorecendo o crescimento de fungos e deteriorando materiais construtivos. Muitas vezes o problema é confundido com infiltração, levando a soluções superficiais que mascaram a origem da umidade sem eliminá-la. Quando controlamos temperatura e umidade, melhoramos diretamente a qualidade de vida. Ambientes mais estáveis reduzem o mofo e impactam positivamente a saúde", afirma a arquiteta Caroline Ghessi, especialista em desempenho das edificações e diretora de comunicação da Drystore.

Tecnologias e soluções

Nos últimos anos, vídeos nas redes sociais popularizaram o uso de placas de EPS, conhecido popularmente como isopor, aplicadas pelo lado interno das paredes como alternativa rápida para eliminar manchas de umidade. "É uma solução que mascara o problema. Na superfície, a parede parece seca, mas a umidade continua agindo internamente, o que pode gerar danos maiores à estrutura das paredes e riscos graves à saúde", alerta Caroline.

O EPS, na verdade, é um dos materiais mais importantes da construção civil moderna quando utilizado de forma tecnicamente correta. Quando aplicado externamente por meio do sistema EIFS (Exterior Insulation Finish System), o material cria uma barreira térmica capaz de manter a estrutura da parede aquecida, eliminando pontes térmicas e deslocando o ponto de orvalho para fora da edificação.

O isolamento térmico contínuo externo reduz significativamente a ocorrência de condensação interna, um dos principais gatilhos para a formação de mofo em países de clima frio e úmido. A tecnologia é amplamente utilizada na Europa, América do Norte e Oceania como estratégia preventiva para melhorar a saúde dos ambientes construídos.

A discussão também expõe uma lacuna regulatória no Brasil. A arquitetura de desempenho, baseada na norma ABNT NBR 15575, trouxe avanços importantes ao estabelecer critérios mínimos para conforto térmico, acústico e durabilidade das edificações. Entretanto, especialistas apontam que a norma não contempla de forma adequada fenômenos higrotérmicos relacionados à condensação de umidade.

Um exemplo vem da Nova Zelândia, que apresenta características climáticas semelhantes às encontradas no Rio Grande do Sul, com elevada umidade relativa do ar e grandes variações térmicas ao longo do ano. Nas últimas décadas, o governo neozelandês endureceu as exigências de isolamento térmico e controle de condensação nas edificações, após estudos relacionarem moradias frias e úmidas ao aumento de doenças respiratórias, especialmente entre crianças e idosos. O resultado foi uma redução significativa nos problemas de saúde associados à qualidade do ambiente interno.

Para o engenheiro civil e diretor da Drystore, Fábio Ghessi, a construção civil brasileira precisa avançar para uma abordagem mais preventiva. "O desempenho começa no projeto. Quando pensamos na edificação como um sistema integrado, conseguimos entregar mais conforto, eficiência e saúde para o usuário", afirma.

O aumento da preocupação dos consumidores já é percebido pelo mercado. De um inverno para outro, a Drystore registrou crescimento de aproximadamente 50% na procura por soluções baseadas em EPS e sistemas de isolamento térmico. A empresa atua com tecnologias voltadas para impermeabilização, controle de condensação, revestimentos de alto desempenho e sistemas EIFS, desenvolvidos para enfrentar as condições climáticas cada vez mais severas observadas no Rio Grande do Sul. No site, há diversas soluções para esse tipo de problema.

"Nós oferecemos textura e tintas especiais, mas para obter um resultado efetivo é importante executar a solução completa, que envolve diversas camadas de impermeabilização e isolamento trabalhando em conjunto", explica o diretor da empresa Rodrigo Luongo.

Em um cenário de mudanças climáticas, aumento da umidade e crescimento das doenças respiratórias, a discussão sobre saúde pública deve ultrapassar os hospitais e chegar também aos projetos arquitetônicos. Afinal, combater o mofo e a condensação dentro das casas pode ser uma das formas mais eficientes de reduzir os impactos do inverno sobre a população.